Estudo internacional questiona benefício amplo da terapia hormonal após cirurgia para câncer de próstata
Meta-análise com mais de 6 mil pacientes, publicada na The Lancet, indica que combinação com radioterapia não aumenta sobrevida global na maioria dos casos; ganho pode se restringir a pacientes com PSA mais elevado

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Um dos mais abrangentes levantamentos já realizados sobre o tratamento do câncer de próstata recorrente após cirurgia lança dúvidas sobre uma prática adotada há décadas: a adição rotineira de terapia hormonal à radioterapia pós-operatória.
Publicado online nesta quinta-feira (26), pela revista médica The Lancet, o estudo reuniu dados individuais de 6.057 pacientes incluídos em seis ensaios clínicos randomizados de fase 3. A análise foi conduzida por pesquisadores ligados ao consórcio internacional MARCAP (Meta-Analysis of Randomised trials in Cancer of the Prostate), sob coordenação de equipes da University of California, Los Angeles e da Case Western Reserve University School of Medicine.
A principal conclusão: adicionar terapia hormonal à radioterapia após a prostatectomia radical não melhorou de forma estatisticamente significativa a sobrevida global na população geral analisada.
O risco relativo de morte foi 13% menor no grupo que recebeu hormonioterapia combinada (hazard ratio de 0,87), mas o intervalo de confiança incluiu a possibilidade de ausência de benefício (IC 95% 0,76–1,01; p=0,06). Em dez anos, a sobrevida global foi de 83,6% entre os que receberam apenas radioterapia, contra 84,3% entre aqueles tratados com radioterapia mais hormonioterapia — diferença considerada modesta.
“Os nossos achados fornecem o nível mais robusto de evidência até o momento sugerindo que pode não haver benefício clinicamente relevante em termos de sobrevida global ao se adicionar terapia hormonal à radioterapia pós-operatória em homens com PSA baixo”, afirmou o oncologista Amar U. Kishan, da UCLA, autor sênior do estudo, em comunicado que acompanha a publicação.
PSA como divisor de águas
O ponto mais sensível da análise foi a identificação de um possível subgrupo que, de fato, pode se beneficiar da estratégia combinada: homens com níveis mais elevados de PSA (antígeno prostático específico) antes do início da radioterapia.
Entre pacientes com PSA acima de 0,5 ng/mL, a adição de hormonioterapia esteve associada a redução significativa no risco de morte. Para aqueles com PSA entre 0,51 e 1,0 ng/mL, o hazard ratio foi de 0,72; acima de 1,0 ng/mL, de 0,69. Já entre pacientes com PSA de até 0,5 ng/mL, não houve benefício demonstrável.
A interação estatística entre nível de PSA e efeito do tratamento foi significativa (p para interação=0,02 na análise binária), sugerindo que o marcador pode ter papel preditivo.
“Mesmo a terapia hormonal de longa duração só demonstrou potencial impacto em sobrevida em níveis de PSA substancialmente mais altos do que os usualmente observados na prática contemporânea de radioterapia pós-operatória”, observam os autores no artigo.
Modelagens com curvas spline indicaram que, no caso da terapia hormonal prolongada (24 meses), o limite superior do intervalo de confiança para benefício em sobrevida global só ficou consistentemente abaixo de 1,0 quando o PSA ultrapassava aproximadamente 1,6 ng/mL.
Curta vs. longa duração
Outro ponto analisado foi a duração da terapia hormonal — tipicamente de 4 a 6 meses (curta) ou 24 meses (longa). De forma geral, não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas estratégias quanto ao impacto em sobrevida global (p para interação=0,17).
Em ensaios que compararam radioterapia com ou sem hormonioterapia de curta duração, não se observou benefício consistente. Nos estudos envolvendo hormonioterapia prolongada, houve tendência mais favorável, mas concentrada em pacientes com PSA mais elevado e características patológicas mais agressivas.
Diferentemente de meta-análises baseadas apenas em dados agregados publicados, este trabalho utilizou dados individuais de cada paciente, permitindo análises mais refinadas por subgrupos e controle mais rigoroso de variáveis prognósticas, como escore de Gleason, estágio tumoral e margens cirúrgicas.
O seguimento mediano foi de nove anos. O financiamento do estudo foi concedido pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), sem interferência na análise ou redação do manuscrito, segundo os autores.
Implicações clínicas
Os resultados devem reabrir o debate sobre a prescrição rotineira de terapia hormonal em todos os pacientes com recidiva bioquímica após prostatectomia.
Para homens com PSA até 0,5 ng/mL antes da radioterapia — perfil cada vez mais frequente com o diagnóstico precoce e o monitoramento intensivo — a estratégia combinada pode representar exposição a efeitos adversos, como fadiga, perda óssea e risco cardiovascular, sem ganho comprovado em sobrevida.
Os autores ressaltam, contudo, que a decisão terapêutica permanece individualizada. “Há uma necessidade não atendida de biomarcadores que permitam prever quais pacientes realmente se beneficiarão da adição de terapia hormonal”, escrevem.
Enquanto esses marcadores não estão disponíveis, o PSA pré-radioterapia emerge, à luz desta análise, como o principal guia para calibrar a intensidade do tratamento em um cenário em que mais nem sempre significa melhor.
Referência
Uso e duração da terapia hormonal com radioterapia pós-operatória para câncer de próstata recorrente: uma metanálise de dados individuais de pacientes. The Lancet.Publicado em: 26 de fevereiro de 2026. Amar U Kishan, Yilun Sol, Christopher C Parker, Paulo Sargos, Matthew R Sydes, Sylvie Chabaude outros. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00137-6Link externo